Julho 09, 2009

Preceitos para a vida solitária


Toda convivência exige alguma forma de disciplina. No caso do solitário, destinado a ter exclusivamente sua própria companhia, ele apenas se manterá lúcido e apto a sobreviver se estabelecer regras – e segui-las:

1. Viver em solidão pressupõe respeitar a si mesmo. Sem esse primeiro gesto de apreço, tudo perde sentido.

2. Acordar sempre no mesmo horário e não se permitir qualquer prostração. É necessário vigor: levantar-se, expulsar da mente os sonhos ruins e os presságios (são todos falsos) – e arremeter contra o dia.

3. A higiene e os cuidados pessoais são indispensáveis. Os gregos já conheciam o poder da água fria contra os maus humores.

4. As refeições compõem um ritual imprescindível. Nada de engolir, como um símio, algumas porcarias. Dedicar-se com esmero ao ato de sentar à mesa e alimentar-se. Aqui, toda pressa é nociva. Engana-se quem pensa que cuidar das coisas triviais representa perda de tempo.

5. Se o solitário trabalha em casa, deve assemelhar-se a Maquiavel, que se lavava, vestia-se como secretarius florentinus e só então se recolhia à biblioteca para escrever.

6. Sempre negar-se a reclamar da solidão. Para si e para outrem. O solitário é um privilegiado – e não só pelo fato de ir ao banheiro e deixar a porta aberta, como dizia o melancólico Antonio Maria –, pois tem a melhor companhia que pode existir (na falta de outras que porventura surjam, não graças ao destino, mas à livre escolha).

7. Celebre, todos os dias, a liberdade de criticar o mundo sem fazer concessões a um consorte nem sempre disposto a partilhar de sua ironia.

8. Se almejar companhia, deve buscá-la – mas sem desespero, sem auto-humilhação, sem aceitar menos do que anseia. Deve ser criterioso como se lhe sobrassem opções. Quando em dúvida, postergar a escolha. Se movido pela urgência, alugar, a preço justo, os serviços de alguém.

9. Jamais transferir seus afetos a um animal doméstico. Seria humilhar-se, decair na escala da evolução. Animais podem ser bons companheiros, mas não devem partilhar o dormitório ou as refeições. Ou, ridículo, serem tratados como humanos.

10. Precaver-se dos empregados. Recordar vivamente as contrariedades sofridas pelo sinólogo Peter Kien no romance de Elias Canetti. Sob o empregado fiel quase sempre se esconde um tirano.

11. Não enganar-se quanto à própria solidão. É conhecido o caso do bancário que, ao chegar à residência, acendia todas as luzes, ligava a tevê em alto volume e punha-se a imaginar ter amigos à sua volta: em pouco tempo passou a falar sozinho – foi o primeiro passo rumo à camisa-de-força.

12. Jamais considerar-se deprimido – ou, pior, depressivo. Seria o início de um mal cujo tratamento é infinito, consome grande parte das reservas financeiras e coloca o paciente sob as ordens de um alienista (Machado de Assis captou bem o significado desse risco). A depressão não passa de uma forma deletéria de olhar para si mesmo.

13. Nenhum desmazelo é aceitável, pois todos escondem falta de amor-próprio.

14. Cultivar hobbies. Especializar-se em jardinagem ou filatelia é preferível a gastar o tempo em rodinhas sociais, mendigando atenção, fazendo-se de palhaço ou ingerindo estupefacientes (nenhum deles supera a eficácia da nossa própria imaginação).

15. Não quebrar os laços familiares – mesmo que se limitem à velha tia, caduca e ranzinza, que não deixará herança alguma.

16. Jamais, jamais aceitar o papel de terceiro, mediador ou juiz, principalmente em relações amorosas. O que lhe restará resume-se a um travo no coração – e o feliz e inconseqüente desprezo dos que o usaram.

17. Nunca alugar quartos a colegas de serviço, a fim de dividir despesas. A privacidade não pode ser violentada em nome da economia ou do sacrifício de se suportar estorvos. É preferível tornar-se monge trapista.

18. Não ensimesmar-se exageradamente. Mas ao menor sinal de que um estranho se aproxima movido pela compaixão ou pelo interesse, afastar-se. (Atenção: jamais sucumbir à curiosidade e aos favores da vizinha solteirona.)

19. Gravar, em local visível, o dístico de Schopenhauer: “Já aos trinta anos de idade estava sinceramente cansado de considerar como meus iguais seres que de fato não o são”.

20. Ter sincero e profundo orgulho de seu estado.

Julho 08, 2009

The Book Seer

A sugestão vem de dois ótimos blogs: Pó dos Livros e Estante dos Livros: acabou de ler uma obra e gostaria de ler outras semelhantes? Tente o Book Seer.

Julho 07, 2009

Lógica booleana

O programa lembra o antigo O céu é o limite. Em um cenário tosco, no qual predominam os tons de cinza, o escritor responde às questões formuladas pelo sorridente apresentador. A cada acerto, a linha de mercúrio do imenso termômetro, colocado no fundo do cenário, sobe. Mas o escritor sempre acerta. Sempre. Não sei se estou na platéia ou no conforto de minha casa, acompanhando pela tevê. Enquanto ouço as respostas, rio sozinho, pois a linguagem do escritor é absolutamente hermética – e chego à conclusão de que se assemelha a uma falsa lógica booleana. Quanto mais incompreensível a resposta, mais largo é o sorriso do apresentador, crescem ainda mais os aplausos. O escritor também sorri, mas de maneira perniciosa. Quantos milhões ele receberá?, pergunto-me, enquanto admiro a linha de mercúrio ascendente. Imagino as respostas tomando a forma dos balões das histórias em quadrinhos, e a idéia agrada-me por sua inesperada carga de ironia. Mas, no fundo, sinto-me desolado. Então acordo.

Julho 06, 2009

Reflexões sobre o mercado editorial

Alguns dos artigos que compõem o primeiro número da Booktailors Publishing Magazine, dirigida por Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes, podem servir a inúmeras reflexões sobre o mercado editorial brasileiro. Independente disso, é reconfortante e animador ver como nossos irmãos portugueses passam em revista a arte da edição.

Julho 03, 2009

Lamúrias

Voltando às epístolas de Ovídio, penso na exagerada fragilidade do poeta em relação ao imperador – mas não estamos também desprotegidos sob um Estado no qual as instituições são precárias e corruptas? Que poder tem, hoje, o cidadão perseguido por uma autoridade injusta? Ele não sofrerá a pena do exílio, mas se não for amigo das pessoas certas, se não dispuser de recursos para contratar advogados, se de alguma maneira for silenciado, quem se preocupará com ele? Alguém realmente acredita que, neste país, estamos livres do arbítrio?

Falta a Ovídio, no entanto, nobreza de caráter. Ou melhor: altivez. Não sabe aceitar seu destino – e perde-se em auto-acusações, humilhando-se inutilmente, desdobrando-se em elogios exagerados àqueles que poderiam ajudá-lo. Choramingas e resmungão, implora inclusive aos que o desprezam. É vergonhoso. E seu comportamento torna-se vulgar quando lembramos que ele não foi despojado dos próprios bens. Maria José de Queiroz – em seu belíssimo Os males da ausência, ou a literatura do exílio (Editora Topbooks) – relata, inclusive, que o poeta “mandara vir criados e um secretário de Roma” e que “recebera boa soma em dinheiro”. E mais: “a administração da província não o via como condenado a pena perpétua. Nem persona non grata. Isentaram-no de impostos e nomearam-no para o posto de agoníteta – presidente dos jogos sagrados”.

Como diz Carpeaux, “não é um poeta sério”. Apegou-se ao tema mais próximo e mais fácil – o culto exagerado de sua dor – e destrambelhou a maltratar seus leitores com sua lengalenga, com “o absurdo da sua pretensão e a tola ingenuidade com que dá voltas e mais voltas em torno de si mesmo, de suas angústias e, também, o que é mais triste, de suas esperanças” (Maria José de Queiroz).

A interrogação que fica, após a leitura, não é desprezível: que tipo de leitor pode apreciar essas cartas lamurientas, desprovidas daquela consciência da própria honra que os gregos nos transmitiram – e que Nietzsche resumiu em seu Amor fati?

Julho 01, 2009

A viagem

O velho ônibus nos leva, em uma tarde de verão, à cidadezinha do interior. Somos cinco ou sete homens, espalhados no ônibus marrom e branco, sem qualquer conforto, suportando o mormaço e a poeira em nome de algo maior: um alfarrabista nos convidou para conhecer a coleção de manuscritos deixada pelo pai, leitor compulsivo que, durante anos, fez copiosas anotações sobre os livros que leu. Somos, portanto, uma comissão de peritos. Não conversamos durante a viagem. Não lemos. Sob o sol de verão, no ônibus sem ar-condicionado, nosso humor não é dos melhores. Mas chegamos. O sebo é amplo, excessivamente amplo. O filho orgulhoso nos recebe – alto, magro, cabelos emplastrados de brilhantina, óculos de aros grossos e escuros –, parecendo um tanto confuso. Depois das apresentações, sentamos em volta da mesa, no centro da loja, e ele traz os volumes, mais de quinze, todos encadernados, de diversos tamanhos. Ao abrir o primeiro da pilha, a surpresa: no alto da página, título, autor e editora do livro – e a data da leitura; e sob a bela caligrafia, tiras de histórias em quadrinhos, várias delas, algumas sobrepostas, todas coladas à página. Folheio o volume, atônito, e descubro que o exercício de colagem se repete a cada obra lida. As páginas, duras de goma-arábica, estão carregadas de recortes de jornal, sem qualquer lógica. A decepção é nítida no rosto de todos. Súbito noto a expressão alheia do nosso anfitrião, o olhar pueril, a palidez. Como não percebemos antes a evidente debilidade mental? Minha atenção, contudo, é desviada para a rua, por onde passam mulheres de maiô, algumas com saída-de-banho, outras penteando os cabelos ainda molhados. Uma delas, loira de cabelos compridos, veste um casaco de peles marrom, cujo decote deixa entrever os seios volumosos. Ela pára na esquina próxima e conversa com um idoso, pergunta-lhe sobre o dentista do bairro – e o velho, sorrindo, banguela, afirma que, graças ao profissional, perdeu todos os dentes. Levanto-me e vou à calçada. Depois, aborrecido, ao ônibus. Quando retorno, já é noite. O sebo está às escuras. Os membros da junta fuçam as estantes, fazem perguntas, querem salvar a viagem. Nosso anfitrião tem o olhar entristecido, derrotado. Ninguém se preocupa em acender as luzes. Então acordo.

Junho 29, 2009

Cartas a Fábia

Condenado ao exílio pelo imperador Augusto, Ovídio partiu para o litoral do mar Negro – à época, uma terra de bárbaros. De lá, enviou a Roma duas obras: Tristia (Cantos tristes) e Epistulae ex Ponto (Cartas Pônticas). Ambas são coleções de elegias cujo objetivo é comover o imperador – de maneira que Augusto lhe permita viver o degredo em local mais aprazível – e os amigos e familiares, para que não se esqueçam do poeta e, principalmente, abracem a defesa de sua causa.

Duas das Cartas Pônticas (tradução de Geraldo José Albino, Editora WMF Martins Fontes) são enviadas a Fábia, a jovem viúva com quem Ovídio se casara. Na primeira, ele diz que seus sofrimentos o tornaram velho antes do tempo, e que a esposa se assustaria com a degradação de seu corpo. De fato, deve ser terrível envelhecer prematuramente. Mas Otto Maria Carpeaux, que define Ovídio como “excessivamente sentimental”, acusando-o de ter contaminado a literatura universal com assuntos tediosos, está certo. A carta termina com a suposição de que Fábia, agoniada pelos sofrimentos do esposo, também teria envelhecido. Ovídio deseja ser eloqüente, mas sua ênfase na suposta decadência da mulher ressuma afetação.

A segunda carta é mais interessante. Cansado de esperar, Ovídio repreende a esposa:

Não é, pois, estranho que, buscando o término de todos os meus males, eu peça sem cessar outra plaga. Mais admirável é que tu, minha esposa, não ma tenhas obtido e que possas conter as lágrimas por minhas desgraças. Perguntas-me o que fazer? Por que não o procuras tu mesma? Tu o encontrarás, se realmente quiseres encontrá-lo. Querer é pouco: para chegares ao alvo, convém que o desejes com um afã capaz de abreviar o teu sono.

Sua insistência, contudo, torna-se patética. Ele chega a ordenar que Fábia se empenhe inclusive porque, em outros poemas, ela fora citada como exemplo de esposa – e, portanto, deveria provar que os elogios do marido eram verdadeiros. A carta se resume a uma sucessão de exigências, nas quais Ovídio apela até mesmo à lei matrimonial. A cobrança é evidente:

Eu não sou indigno e, se quiseres confessar a verdade, deves a meus méritos algum agradecimento que, certamente, me devolves com grande usura.

E o poeta deixa claro qual sentimento o impulsiona. Em determinado trecho, percebe-se que ele deveria ter recebido notícias pouco agradáveis sobre o comportamento da esposa:

Os ditos indiscretos não podem prejudicar-te, embora o desejem.

Ao receber a carta, Fábia deve ter feito o oposto do que seu marido cobrava. Seria a reação mais previsível diante de um texto no qual o desespero se transforma em presunção, em arrogância. Ao abusar dos recursos que a retórica oferece, Ovídio também exorbita da paciência de seus leitores.

Junho 26, 2009

Irresistível

Sofri um acesso de incontrolável identificação ao ver a capa de Veja. A revista fala exatamente o que eu gostaria de repetir, em alto e bom som, à politicalha que comanda este país: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Foi como se o meu rosto estivesse ali, compondo a capa, encimado pelo grito de revolta que, certamente, percute na consciência de todos os que têm um mínimo de capacidade crítica: “Basta de impunidade!”.

Depois, na longa reportagem “À sombra da Constituição”, o texto enxuto, claro, preciso, é acompanhado por dezenas de declarações que, em qualquer democracia civilizada, obrigariam o presidente da República a, no mínimo, ficar de joelhos e proferir um mea-culpa. O que, é evidente, não acontecerá aqui.

Deliciosamente mordaz, a revista também me presenteou com a legenda da página 65, na qual expõe a farsa do esquerdismo e denuncia a parcialidade e a demagogia daqueles que, por muito menos, já tentaram paralisar o país: “RADICAIS CALADOS – mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula”.

Veja ainda me regalou com a radiografia imparcial do movimentículo paredista da USP, a resenha de Nelson Ascher sobre Hammerstein ou a Obstinação, de Hans Magnus Enzensberger, e o artigo “Empregos secretos”, de J. R. Guzzo. Só faltou, para que a leitura fosse absolutamente perfeita, um daqueles bons ensaios do Reinaldo Azevedo.

Junho 24, 2009

Entre os livros

Descobri o mundo no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Na primeira visita, à tarde, sem saber como me comportar naquele ambiente sóbrio, silencioso, passei poucos minutos no salão de leitura. Dias depois, por algum motivo – eu teria 13, 14 anos? –, visitei o local à noite: fervilhava. Através de uma portinhola sob a escadaria, servia-se chá e café; os grupos, nas mesas, folheavam jornais e discutiam política; numa saleta ao lado, jogava-se xadrez em meio à neblina dos cigarros. E o melhor: dona Odete, a bibliotecária, permitia que alguns consulentes ultrapassassem o balcão e visitassem o acervo circulante. Logo eu percorria, deslumbrado, milhares de livros.

Eram os tempos da ditadura militar, e as obras de Marx e Lênin, retiradas do acervo, permaneciam fechadas em um armário, na sala da diretoria. Os emedebistas e a esquerda silenciada murmuravam pelos cantos contra o diretor da casa, o advogado Celso Zuchetti, um anticomunista brilhante e mordaz, de quem acabei por me tornar amigo.

No andar superior ficava o salão de estudos e o acervo de pesquisa, comandados pelo velho Daniel, homem simples, boníssimo, que orientava os mais jovens nos estudos. Sentado em sua mesinha, ele batia a sineta quando os sussurros das mesas subiam de tom, fazendo com que voltássemos a ruminar os livros. Numa das extremidades da sala, o retrato a óleo de Rui Barbosa nos observava, altivo como a República Velha.

Passaram-se semanas até que Daniel me franqueasse os livros guardados nas estantes da diretoria: uma Brasiliana completa, dezenas de raridades, luxuosas encadernações de clássicos portugueses – e os comunistas, que ao mero toque queimavam a ponta dos dedos.

Ultrapassei os difíceis anos da adolescência naqueles salões. Protegido pelos livros, ouvindo os debates dos mais velhos, acordando para um novo autor a cada noite, descobri que a idéia de fraternidade nasceu em uma biblioteca. De volta para casa, ao cruzar a rua do Rosário rumo ao sobradinho na Onze de Junho, eu era a minha última versão, sempre melhorada.

Junho 23, 2009

Philip Roth: politicamente incorreto

“Nenhum ser humano está preparado para o que deve enfrentar em sua vida.”

Junho 21, 2009

Apartados da tradição

Em dois artigos publicados na Folha de S. Paulo (30 de maio e 13 de junho), Antonio Cicero fala sobre a idolatria do contemporâneo: “O desejo do contemporâneo não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal”.

De fato, quais garantias nos oferecem as obras que ainda não passaram pelo filtro do tempo? Quem olha apenas o presente condena-se ao emburrecimento, pois, na maioria das vezes, nossos contemporâneos – exaltados pela mídia – nada significam, resumindo-se a ecos medíocres da tradição.

Mas como nasce o provincianismo? E por que ele se mostra tão arraigado? O mal principia nos bancos escolares. Uma historinha explicará a afirmação: há alguns meses, jantando na casa de um amigo, pude usufruir da companhia de uma professora de história recém-formada pela USP. A jovem, muito falante, lá pelas tantas – e não pensem que ela abusou do vinho – nos brindou com uma dessas pérolas inesquecíveis: “É impossível não perceber que a filosofia e a arte gregas estão maculadas pela herança desumana da escravidão”. E destrambelhou a repetir velhos, inúteis e carcomidos chavões de esquerda, ao fim dos quais, enredada na sua própria teia, ela já condenara à fogueira Platão, Aristóteles, Sófocles e Ésquilo, absolvendo, para minha surpresa, Aristófanes, pois, outra pérola, “a comédia sempre tem um alto poder contestador”.

Imagino essa garota repetindo suas idiotices, anos a fio, para centenas de crianças e jovens. E, pior, imagino o idiota que, refestelado em sua cátedra, ensina tais absurdos. George Steiner está certo: “A maioria daqueles a quem confiamos nossos filhos na escola secundária, daqueles em quem procuramos orientação e exemplo na universidade, são, em maior ou menor intensidade, gentis coveiros” (in Lições dos Mestres).

Em minhas breves experiências na universidade tínhamos de ler Roland Barthes e Charles Sanders Peirce de joelhos. E ai dos que desviassem os olhos daquelas páginas! O escolhido deste princípio de século é Deleuze. E dentro de alguns anos, quem será o novo bezerro de ouro? Enquanto isso, a Poética e a Retórica de Aristóteles emboloram no setor mais úmido da biblioteca.

Não se trata, contudo, de trocar um guia de cego por outro. Trata-se, sim, de estar aberto a tudo, sem preconceitos – e, em primeiro lugar, ler aqueles que nos antecederam, e cuja obra foi testada por gerações.

Não é o que acontece na universidade. O adjetivo que mais ouvi nos dois cursos de Letras que frequentei foi “superado”. “Fulano está superado”, decretava o arrogante catedrático. “Essa análise está superada”, grunhia a professora. “Como você pode perder tempo com esse autor superado?”, perguntou-me a prosélita do Departamento de Semiótica ao perceber que eu lia Albert Thibaudet. A universidade vive, assim, sob uma censura camuflada, procurando mais catequisar do que abrir consciências. E pobres dos que se afastam do redil! Um longo e doloroso calvário os aguarda, afinal – esse é outro dos chavões que cansei de ouvir –, “precisamos estar inseridos na modernidade”, ou seja, devemos ser cada vez mais provincianos.

A origem do problema, no entanto, é anterior aos cursos universitários. O que dizer de um aluno que termina o ensino médio sem jamais ter lido um poema de Catulo? Que jamais tenha ouvido falar de Heráclito? Pode parecer absurdo pensar nesses nomes quando a escola mal alfabetiza, mas a recente polêmica em torno dos livros adotados nos colégios paulistas mostra o descaso, a ignorância e o desvirtuamento dos responsáveis pela escolha das obras. Eles não são apenas provincianos; são filisteus.

Apartados da tradição, da nossa melhor herança cultural, os jovens podem viver sem grandes problemas – como de fato vivem –, mas terão um número reduzido de instrumentos para lidar com suas dúvidas e seus temores; e, menos sábios, celebrarão a mediocridade todos os dias, certos de viverem no melhor dos mundos.

Junho 20, 2009

Shakespeare, Lampedusa e Vila-Matas

Enrique Vila-Matas resenha o Shakespeare de Giuseppe Tomasi di Lampedusa no Babelia deste sábado. O julgamento de Vila-Matas sobre o encontro desses dois escritores nos conduz ao caráter atemporal da leitura; e não poderia ser diferente:

Sus [de Lampedusa] eruditas y a veces alegres líneas sobre Shakespeare no cesan de comunicarnos que la lectura puede hacernos sentir dueños del tiempo y que ya sólo por eso la pasión de leer debería ser considerada como la más envidiable actividad que hay a este lado del paraíso.

Junho 17, 2009

Homens absolutamente comuns

O primeiro impacto da leitura de Homem comum, de Philip Roth, foi a epígrafe. O poema de Keats, “Ode a um rouxinol”, está entre os que mais aprecio. Ele me acompanha há anos, tornou-se um desses textos aos quais, por diferentes razões, acabo sempre retornando – e encontrá-lo na abertura do romance representou ter a compreensão imediata do que me esperava. Compreensão, aliás, que se confirmou plenamente.

A experiência da morte, a desolação da finitude humana, o inútil olhar que lançamos todos os dias ao passado – “Não há como refazer a realidade”, diz o protagonista –, tudo está ali, na escritura impecável de Roth, capaz de, como poucos, fazer com que um gesto de despedida se transforme na representação de certa característica essencial, que define parcela de uma existência:

A última pessoa a se aproximar do caixão foi a enfermeira, Maureen, que parecia ser uma batalhadora, alguém que tinha familiaridade com a vida tanto quanto a morte. Quando deixou, com um sorriso, que a terra escorresse lentamente por entre os dedos da mão entreaberta, caindo sobre o caixão, o gesto pareceu o prelúdio de um ato carnal.

Roth criou uma narrativa que resume o nosso inexorável caminho rumo à morte. A plenitude que experimentamos quando jovens – um êxtase muitas vezes carnal – se opõe, em grande parte do livro, ao massacre da velhice, às humilhações da doença, aos sentimentos de culpa e às interrogações que levaremos à sepultura. Mas Homem comum não é um romance sobre a derrota. É claro que Roth não oferece a seu personagem o lenitivo da transcendência, mas permite que ele supere sua angústia por meio da fraternidade e da compreensão altiva (refiro-me ao diálogo final) – e também do reencontro, ainda que em sonho, com a infância.

É a nossa história, a de homens absolutamente comuns.

Junho 15, 2009

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

Na última edição do Rascunho, escrevi sobre Os desbravadores – uma história mundial da exploração da Terra (Editora Cia. das Letras), do historiador Felipe Fernández-Armesto.

Junho 12, 2009

O abismo de Baudelaire

Dentre os textos de Meu coração desnudado, de Charles Baudelaire, que mais me incomodam, estimulam e divertem está o de número LV:

No amor, como em todos os negócios humanos, o entendimento cordial resulta de um mal-entendido. Esse mal-entendido é o prazer. O homem exclama: – Ó meu anjo! A mulher arrulha: – Mamãe! mamãe! E os dois imbecis estão persuadidos de que pensam de acordo. – O abismo infranqueável, que gera a incomunicabilidade, permanece infranqueado.

Nessa brevíssima meditação, Baudelaire, como bom anti-romântico, coloca o amor entre os “negócios” humanos, despojando-o de qualquer idealização. Depois, diminui a própria possibilidade de os homens se entenderem, visto que, no fundo, todo entendimento “resulta de um mal-entendido”. A seguir, denigre a relação entre homem e mulher, definindo inclusive o prazer como um mal-entendido. Não satisfeito, segue-se o diálogo ridículo, por meio do qual ele espezinha o que ainda resta de esperança em seu leitor, para, no fim, concluir apresentando o veredicto terrível, a condenação do gênero humano à incomunicabilidade.

O julgamento é de um pessimismo atroz, realmente exagerado, chocante. Mas é inegável que, mesmo se não estivermos propensos a concordar com Baudelaire, ele nos faz refletir. Quando chegamos ao ponto final, o espinho já foi enfiado em nossa carne.

Erich Auerbach percebeu bem essa característica, chamando nossa atenção para o fato de que, na obra baudelairiana, “a relação entre amantes – ou, mais precisamente, entre os que estão ligados pela atração sexual – é representada como uma obsessão misturada ao ódio e ao desprezo, um vício que não perde nada de sua força atormentadora e degradante ao ser experimentado em plena (e indefesa) consciência”.

Aliás, o ensaio de Auerbach do qual retirei a citação acima – “As flores do mal e o sublime” (in Ensaios de literatura ocidental) é um exemplo de como alguns leitores reagem a Baudelaire, inebriados por ele “cantar em estilo elevado a ansiedade paralisante”, mas ao mesmo tempo desejando manter distância dessa literatura que, quase sempre, nega a vida. Auerbach consegue analisar a poesia de Baudelaire com isenção, mas percebemos o quanto ela o incomoda. Ele exalta o “uso simbólico do horror realista”, mas repudia a “incompreensão diletante da tradição cristã”, a “desesperança sombria”, as “tentativas absurdas e fúteis de se inebriar e de escapar”.

Creio que a maioria dos leitores guarda o mesmo sentimento em relação a Baudelaire. Ele talvez empolgue os jovens, principalmente os cheios de amargura, os depressivos, os que se consideram incompreendidos. Mas o entusiasmo exagerado não é a melhor das reações possíveis à poesia e à literatura em geral. A empolgação, na verdade, esconde quase sempre o entendimento imperfeito, superficial – e traz, implícita, a necessidade da releitura. O leitor maduro, ainda que, como Auerbach, refute o “emaranhado sem esperança” de Baudelaire, consegue ler sua obra sem preconceito, aceitando que ele deseje inocular em nossas veias o seu veneno, mas preservando a dose de crítica que nos permite fruir a perfeição estética sem, contudo, sermos capturados pelo niilismo.

Minha relação com Baudelaire é exatamente assim. Depois que o leio, um exercício sempre prazeroso, sinto-me novamente expulso do Paraíso, e olho a vida de maneira ainda menos inocente – mas nem por isso deixo de acreditar que alguma forma de diálogo é possível, que o abismo não é de todo infranqueável.

Junho 11, 2009

Scheherazade

O rei Šahriyar era um tolo. Que homem, em sã consciência, se deixaria engambelar por uma mulherzinha fútil, faladeira e lamurienta como Šahrazad (ou, se preferirem, Scheherazade)? Duas ou três noites ouvindo historinhas curiosas e intermináveis talvez pudesse ser uma alternativa interessante para alguém que descobriu ser traído pela esposa e sofre, por esse motivo, daquela melancolia típica do corno (mal, aliás, que pode ser perfeita e rapidamente curado, pois ninguém é insubstituível). Mas noites a fio? Santo Deus! Só um idiota – ou um surdo – para suportar tamanha embromação. Šahriyar, infelizmente, não pôde ler “A mulher selvagem e a casquilha”, de Baudelaire. Nesse pequeno poema em prosa, ele aprenderia que, frente a determinadas situações-limite, resta ao homem de bom senso poucas escolhas: enjaular a mulher ou apenas lançá-la janela afora. Por essas e outras razões, sempre que leio o Livro das mil e uma noites tenho a absoluta certeza de que ele foi escrito por uma mulher. Quem mais acreditaria que seu poder de sedução é invencível – ou que alguém pode se dispor a ouvir histórias interminavelmente?

Junho 09, 2009

Silêncio

No fundo, tenho dedicado minha vida à busca do silêncio. Recordo-me de sempre desejá-lo. Talvez por isso, na juventude, tenha lido insistentemente são João da Cruz e santa Teresa D’Ávila, esses místicos do deserto carmelita, amantes do silêncio absoluto, no centro do qual arderia a chama da transcendência. Talvez por isso, quando penso no silêncio, a primeira imagem que surge é a da capela do Carmelo em minha cidade natal, onde passei horas, às vezes tardes inteiras, sob a penumbra dos vitrais, orando – ou apenas em silêncio. A outra recordação é a casa de minha avó paterna – ali também o silêncio fluía, era possível vê-lo no olhar de minha avó, sempre à espera, ou na fumaça de seus intermináveis cigarros, enquanto os cachorros dormiam e eu lia.

Morar em São Paulo, contudo, transforma a busca do silêncio em um exercício às vezes torturante. Em certos dias, para se ter paz, é preciso ouvir os quartetos de cordas de Beethoven no último volume, a fim de – literalmente – derrotar o ruído.

Não enlouquecerei como o personagem de Antonio Di Benedetto em O silencieiro, mas parece-me evidente que o ruído se tornou uma das principais características da nossa cultura – e que a maioria das pessoas não suporta o silêncio. Mais do que um produto de consumo, como diz George Steiner, o ruído é hoje uma imposição, uma categoria inseparável do viver – uma arbitrariedade.

Junho 06, 2009

No centenário do nascimento de Isaiah Berlin


Michael Ignatieff encerra sua biografia de Isaiah Berlin (6 de junho de 1909 - 5 de novembro de 1997) com uma frase que sintetiza não apenas a vida desse notável filósofo, mas também o que ele representa para toda uma geração de pensadores: “Num século escuro, Berlin mostrou o que deve ser uma vida da mente: cética, irônica, desapaixonada e livre”. Erguer-se acima das mazelas humanas, agitando, a cada pensamento, a cada ensaio, a cada aula, essas quatro bandeiras – e fazê-lo em uma época marcada por duas guerras mundiais e por ditaduras que, em nome de conduzir o mundo ao Paraíso, assassinaram milhões de pessoas – representa uma trabalho invejável.

Não me recordo qual foi o primeiro texto de Berlin que li, mas fui imediatamente fisgado por sua retórica “precipitada”, por seu estilo deliciosamente professoral, com uma lógica que não é fria, mas aberta ao gracejo, à ironia, e acima de tudo incansável na argumentação, com exemplos que vão se interligando em longos e sedutores parágrafos.

Sempre que leio Berlin imagino o que seria ouvi-lo durante uma aula, como seria dialogar com ele, vendo a linha de seu raciocínio nascer em meio aos gestos, ao movimento dos olhos, à agitação do corpo que se empolga – ou seja, viver o que Ignatieff descreve: “ser arrastado ao salão de sua mente”.

De qualquer forma, estou fadado a experimentar apenas parcela dessa sedução, quando leio seus ensaios. É um consolo, sem dúvida.

Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), por exemplo, deixo, prazerosamente, que ele me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros”, diz Berlin, “não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.

Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.

Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.

Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.

E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.

Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.

Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.

O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.

Junho 05, 2009

Os melhores dias

As manhãs frias lembram-me a infância. São recordações intensas, vívidas. Assim que desperto e começo a me levantar, vejo-me criança, colocando o uniforme no quarto ainda escuro e sentindo o impacto dos tecidos gelados contra a pele. Esse desconforto, no entanto, dura pouco. Eu me lavava com prazer na água que parecia quebrar entre os dedos, e a cada golpe do líquido no rosto, uma sensação de revigoramento me invadia, como se o choque de temperaturas expulsasse para sempre a morbidez noturna. Minha mãe esperava-me na cozinha, o café sobre a mesa. E enquanto ela tremia, eu já me tornara elétrico, alerta, falante. Poucos minutos depois, caminhava na 11 de Junho, observando as calçadas cobertas de orvalho, o verde das árvores impregnado de um brilho mais puro, e percebendo, a cada passo, a suave cumplicidade do sol. O verão desaparecera. Toda a natureza refreara seus ímpetos e eu não tinha de vencer o mormaço que embotava meu cérebro. Era uma alegria cruzar o jardim público vendo a massa encapotada de crianças e jovens, aquele mar azul-marinho de cabeças inclinadas sob o frio, enquanto eu me sentia renascer, pronto a qualquer aventura. Tudo se revestia de uma beleza nova, incluindo as meninas, obrigadas a usar a saia do uniforme, trêmulas e adoravelmente frágeis apesar das meias de lã e dos capotes. Olho pela janela as pessoas lá embaixo, centenas de agasalhos multicoloridos movendo-se na direção do metrô, e meu impulso é estar entre elas, deixando que o frio afague meu rosto, seguindo, alegre, movido pela urgência da fuga, rumo aos melhores dias da infância.

Junho 03, 2009

Sorrindo para a morte


Quando a morte está diante de nós, qual o comportamento adequado a um homem que procurou manter-se lúcido durante toda a vida, a um filósofo que refletiu sobre várias questões, deixando uma obra capaz de influenciar a posteridade?

A resposta de David Hume (ilustração) pode ser lida em “Minha própria Vida”, ensaio autobiográfico que abre o volume Ensaios morais, políticos e literários (tradução de Luciano Trigo), publicado pela Editora Topbooks em sua elogiável coleção Liberty Classics.

O ensaio-rememoração de Hume nos surpreende – ainda que ele próprio o tenha classificado, em carta a seu amigo Adam Smith, como um “texto muito inocente”. Hume é guiado pela altivez, pela sobriedade. Usa poucas páginas para recuperar os fatos de uma vida cujos frutos, hoje, preenchem tratados e tornaram-se indispensáveis nos compêndios de filosofia.

Avesso a tudo que não fosse literatura – “a paixão norteadora da minha vida, e a minha maior fonte de alegrias” – ou não se relacionasse à filosofia e ao conhecimento, o filósofo se impõe na juventude uma “rígida frugalidade”, a fim de não esbanjar o pequeno patrimônio deixado pelo pai e, principalmente, para “preservar a independência”.

Hume, que buscou manter-se impassível diante da crítica, dos pequenos fracassos, da incompreensão e do menosprezo de seus contemporâneos – “vacinado contra as manifestações da insensatez popular”, ele diz –, definha lentamente. Mas seu autodomínio – atestado por Adam Smith – é grandioso. Mantém-se impassível e afirma esperar uma solução rápida. Como diz o professor Renato Lessa em sua introdução aos Ensaios, Hume permanece “livre do delírio melancólico”. E compõe trechos de evidente ironia. No último parágrafo, por exemplo, permite-se brincar com o uso do verbo ser: “[...] eu sou, ou antes fui (porque esse é o estilo que devo agora empregar ao falar de mim, o que me encoraja a mostrar mais abertamente meus sentimentos) [...]”.

O filósofo celebra, inclusive, o prazer que encontrou na acolhida das “mulheres modestas”, mostrando-se em paz não apenas consigo mesmo, mas com a própria natureza. É a figura da imperturbabilidade.

Adam Smith, na carta (presente nos volume da Topbooks) que escreve a William Straham, relatando os últimos dias de Hume, revela mais um de seus ditos irônicos: “Estou morrendo tão depressa quanto os meus inimigos, se tiver algum, podem desejar, e tão calma e serenamente quanto meus melhores amigos podem sonhar”.

Em outro de seus ensaios, “O cético”, Hume afirma: “[...] a morte, embora talvez eles a recebam de forma diferente, ainda assim trata igualmente os tolos e os filósofos”. A confirmar seu pensamento, ele reservou a ironia mais sutil para a penúltima frase de sua despedida. Ironia quase imperceptível àqueles que não conhecem o pensamento de Hume, um cético convicto: referindo-se ao texto que escreve, ele o chama de “oração fúnebre”. Assim, lançando um meio sorriso aos que ficam, ainda encontra disposição para esgrimir com inteligência.

Junho 01, 2009

Livros para leitores e escritores

A arte da ficção, de David Lodge, publicado originalmente em 1992, foi traduzido no Brasil pela L&PM. Apesar dos quase vinte anos de atraso, agora os leitores que desejam conhecer um pouco mais sobre a arte de narrar têm não só um manual seguro, escrito por alguém que domina o assunto profundamente – Lodge, além de escritor, é professor, crítico literário e experiente editor –, mas também um guia que transpira inteligência, estilo refinado e ironia na medida certa.

Ao mesmo tempo sintético e detalhista, David Lodge trata de questões clássicas – a intertextualidade, o tempo (que é analisado, sob diferentes pontos de vista, em quatro capítulos), a aporia, etc. – e de recursos curiosos, como o capítulo sobre conversas ao telefone, no qual, citando certo trecho do romance Um punhado de pó, mostra como Evelyn Waugh criou, sem poder utilizar entonações e timbres de voz, um diálogo no qual comédia e traição se mesclam de maneira patética. Outro capítulo inusitado é o que analisa o potencial expressivo das listas, das enumerações. Lodge parte de um trecho de Suave é a noite, de F. S. Fitzgerald, para demonstrar a capacidade “maravilhosamente onívora” da ficção, “capaz de assimilar discursos de todo tipo e adaptá-los às suas próprias finalidades”.

Não sei como está a tradução brasileira, pois o volume que tenho é da edição espanhola, mas considero o livro uma preciosidade. Serve, inclusive, aos candidatos a escritor, aos escritores porventura inseguros e, também, àqueles que pretendam revisar suas concepções sobre a arte da narrativa.

Aliás, nessa mesma linha, a Editora Zahar lançou, em 2008, um livro igualmente útil: Para ler como um escritor, de Francine Prose. Eu jogaria fora mais da metade dos nomes que ela indica no capítulo “Livros para ler imediatamente”, lista, aliás, que não inclui Joseph Conrad e Graham Greene, apenas para ficar entre os ingleses – e faria o mesmo com pelo menos um terço dos nomes escolhidos por Italo Moriconi para o capítulo “Livros brasileiros para ler imediatamente” –, mas foi uma surpresa agradável descobrir que, na contramão do que se costuma ensinar no Brasil, Prose enaltece a importância de se conhecer gramática e completa: “[...] O estranho é como muitos escritores iniciantes parecem pensar que a gramática é irrelevante, ou que eles estão de algum modo além ou acima dessa matéria, mais apropriada para um estudante primário que para o futuro autor de grande literatura”.

Francine Prose é também uma árdua defensora do conceito de “clareza”, qualidade cada vez mais em desuso nos dias atuais, quando supostos avatares da literatura nacional defendem em seus cursinhos exatamente o oposto – ou apenas enaltecem as soluções abstratas, herméticas e confusas desta ou daquela vanguarda.

Para ler como um escritor não tem o brilhantismo de A arte da ficção, mas está repleto de bons exemplos sobre os aspectos básicos da narrativa e, dentre outras qualidades, recupera um dos conselhos mais repetidos pelo velho e bom Albalat, hoje infelizmente esquecido: “[...] a vantagem de ler amplamente, em contraposição a tentar formular uma série de regras gerais, é que aprendemos que não há regras gerais, apenas exemplos individuais para ajudar a apontar uma direção [...]”.

Enfim, Francine Prose (para principiantes) e David Lodge (para os mais maduros) fazem parte da bibliografia básica dos leitores que desejam ler sem inocência – ou dos escritores que anseiam não seguir esta ou aquela escola, este ou aquele mestre, mas expressar sua visão de mundo e seus sentimentos de acordo com um estilo próprio, quiçá inconfundível.

Maio 30, 2009

Clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol


Analisando os comentários do post abaixo – e agradeço aos comentaristas que aceitaram participar do debate –, vejo que ao menos em um ponto a maioria concorda: repete-se, entre nós, o hábito de entender a crítica literária como ofensa pessoal. E quando isso ocorre, a reação é sempre a mesma: desqualificar o crítico, muitas vezes de maneira injuriosa.

A outra face da moeda – representada pelo crítico servil ou pelos resenhistas (muitos deles também escritores) que se especializaram nos elogios mútuos – é, assim, o complemento perfeito, adequado, à realidade promíscua que caracteriza, em grande parte, a vida literária brasileira.

O escritor e tradutor Francisco Carlos Lopes – autor de Nó de sombras e Dobras da noite (ambos publicados pelo Instituto Moreira Salles) – defende uma tese curiosa sobre todos esses fenômenos, tese que poderia ser resumida em um só pensamento: a relação de compadrio, presente na política desde sempre, também corrompeu a literatura.

O longo comentário de Chico Lopes – enviado por e-mail na última quinta-feira –, que, com autorização do escritor, reproduzo abaixo, é um exercício de lucidez, de grande honestidade:

Rodrigo:

[...]

Em todo caso, o que queria dizer é que esse negócio de não poder julgar os trabalhos de amigos escritores com isenção, em termos puramente literários, é uma miséria tipicamente brasileira (outra delas). Deriva do espírito de "patota", que é inevitável entre nós, e que faz com que a literatura, tão minoritária, tão "clube dos colecionadores de figurinhas do sabonete Eucalol" em termos numéricos e expressivos na inculta sociedade brasileira, se componha de gente excêntrica cujo único motivo para existir é uma vaidade renitente.

Ora, tendo este como único motivo, na verdade, cumpre manter o compadrismo, não ofender ninguém, ser um sujeito sempre simpático, prestativo, generoso, nada crítico.
Não há, na verdade, clima para discussões estritamente literárias e estéticas e vontade de aperfeiçoar nada por esse lado. Aperfeiçoa-se, isto sim, as relações, como se beneficiar (e até de maneiras extra-literárias) delas, como chegar a editores e gente mais famosa etc. e aperfeiçoa-se a arte de nada dizer que possa afetar ilusões compartilhadas.
O sujeito que insistir nisso – na crítica, desprovida de "amizade" por amor à crítica, à mera verdade – será visto como antipático, discriminado e, se não for excluído do clubinho, será ao menos um membro muito evitado e pouco convidado, digamos...

Porque, na verdade, a Literatura aí, como arte que se depura, interessa pouquíssimo. E fica proibido, como em outros clubes de outras finalidades, que se toque em temas-tabu – já que a estrutura é tão frágil, a coisa tão presunçosa e baseada em tão voláteis famas e tão poucos talentos reais, que a verdade pode pôr tudo abaixo facilmente, e aquele que ousou proferi-la será odiado.

O que você disse é verdade – a festa é pequena e os dançarinos são poucos, e é feio ser muito exigente, quando se está em minoria – é preciso ser, acima de tudo, solidário e compassivo, não apresentar critérios ou requisitos de qualidade muito rígidos, levando em conta que todo mundo dança mais ou menos mal ou é francamente capenga.

A gente, por educação, consideração e, em não raros casos, compaixão, se abstém de dizer o óbvio – que o livro que Fulano nos mandou, na esperança de uma força, é medíocre ou precisaria passar por muita purgação e reescritura para se tornar melhor ou apenas digno de consideração.

Já passei muito por isso, cometi vários pecados de bondade ou complacência, ganhando amizades que passavam, então, a ter precisamente o tabu supracitado: nada de dizer a verdade sobre o trabalho do amigo, que ele tinha que ser mais humilde, se aperfeiçoar, escrever melhor, ouvir críticas. Um dia, porém, a complacência acaba, alguma coisa mais real se ventila, e tudo vai por água abaixo, já que o narcisismo primário que preside esses clubinhos é implacável, nesses momentos. Tudo acaba em carrancas, diz-que, diz-que, nas intrigas mais baixas, com os vaidosinhos se digladiando e propagando venenos e escrotidões. O reino da verdade acaba, por pura perversão, sendo o reino da realidade recalcada, o terreno minado onde ninguém de bom-tom deveria ter pisado...

Então acontece, com frequência fatal, que o sujeito mais verdadeiro se esquive voluntariamente, fique mais insociável, digamos, mais eremita, para evitar ser mal-educado ou simplesmente autêntico, mas seus escrúpulos serão mal compreendidos e isso acabará por ser tomado como arrogância.

O que se pretende é abolir toda e qualquer hierarquia de qualidade em nome de uma solidariedade grupal muito falsa e eufórica. O que se pretende é que a música continue tocando e os dançarinos, bons, ruins, chinfrins, proibidos de serem refinados e exigentes, continuem dançando.
O sujeito mais consciente, que se absteve de entrar na dança e segue mudo, é um desmancha-prazer, um chato ressentido, nada mais que isso...

Não somos, brasileiros dados a escritores, digamos, amigos da severidade, da análise, da tarefa óbvia de separar joio do trigo. Não queremos ser desmentidos em nossas ilusões, queremos euforias, números falsos, estímulos, festinhas, beijos, abraços, elogios, nada mais que foguetório...
Por isso é tão difícil lidar com isso – porque apela-se mais para o talento de festeiro e mentiroso, compadre e sujeito simpático, que para a qualificação real. Não há jeito...O sujeito dotado de lucidez e espírito crítico acabará fora do baile.

Era o que eu queria dizer.
Abraços e parabéns.

Chico Lopes

Maio 27, 2009

Reflexões sobre a crítica literária


Há alguns dias, respondendo ao e-mail de um amigo, no qual ele fazia comentários sobre minhas resenhas no Rascunho, escrevi que esse era um trabalho nem sempre agradável. E por uma simples razão: muitas vezes, a honestidade me obrigava a fazer críticas desfavoráveis.

À parte o fato de meus juízos estarem ou não corretos, o que apenas o tempo poderá dizer – e a história da crítica está pontilhada de erros e acertos, estes últimos em maioria –, quando, depois de ler certa obra, vejo-me obrigado a mostrar incongruências e desatinos, ajo assim sem qualquer prazer. Na verdade, sou tomado de certo mal-estar, pois, se há uma pulsão que move meu trabalho, é a de apontar acertos. Ao contrário do que muitos pensam, duvido que algum crítico seja movido por uma pulsão sádica.

Na verdade, os autores brasileiros não estão acostumados a receber críticas. Do que leio na mídia, percebo que a crítica desfavorável é, muitas vezes, escrita de forma velada, protegida sob uma terminologia praticamente hermética, como se, ao dissimular seu julgamento, o crítico pretendesse não se comprometer ou não fazer inimigos. Outra prática comum entre nós é a de considerar bom o que é apenas razoável ou medíocre. Alguns escritores, certamente, ficam satisfeitos – e o suposto crítico ganha amigos e fama. Esse tipo de celebridade, contudo, mostra apenas o quanto a perversão atingiu a literatura, a vida intelectual.

De minha parte, se considero um livro ruim, afirmo claramente o que penso. Por que haveria de fazer concessões? Por que haveria de tratar como gênio quem é somente mediano? Gotthold Lessing (na ilustração acima) tinha um pensamento apropriado sobre o assunto: “Em uma competição de coxos, o primeiro que chega ao final continua sendo coxo, apesar de tudo”.

Para Marcel Reich-Ranicki, os críticos atuam como porteiros de um baile, devendo introduzir um pouco de ordem na festa e, sobretudo, rechaçar, logo na entrada, os charlatães e os incapazes, a fim de deixar mais espaço no salão para os bons dançarinos. O pensamento de Ranicki, um dos críticos que mais aprecio, serve, no entanto, à realidade alemã. Em um país subdesenvolvido, onde a leitura não é um hábito, as edições raras vezes superam os dois mil exemplares e grande parte da população não ultrapassa a linha do analfabetismo funcional, o papel do crítico não é o de ser porteiro do baile. Simplesmente porque o salão está quase vazio e a orquestra toca, sem entusiasmo, para poucos dançarinos.

Quem faz crítica literária neste país, deveria trocar idéias, de maneira didática e sincera, com a minoria iluminada que se interessa pelo assunto, tentando formar consciências para uma verdade simples: em literatura, exatamente como acontece nos demais espaços da vida, há o ótimo, o bom, o medíocre e o ruim.

O baile, portanto, ainda está aberto a todos. Mas não há nada de errado em se aproximar de um dançarino e dizer: “Meu caro, você precisa treinar mais” ou “Meu amigo, você é um desastre”.

Maio 25, 2009

Gongorismos

No Rascunho deste mês, analiso Nosso grão mais fino, novela de José Luiz Passos.

Maio 22, 2009

Arnaldo Cohen e o “revolucionário conservador”

Pude ouvir a Osesp em duas oportunidades este mês, ambas com a regência de Claus Peter Flor, atualmente ocupando o cargo de diretor artístico da Orquestra Filarmônica da Malásia. Foram apresentações completamente díspares – e surpreendentes.

Em Noite transfigurada, de Arnold Schoenberg, Peter Flor conseguiu recriar o clima intimista, noturno do poema de Richard Dehmel. Seguindo o delicado continuum de cordas, experimentamos o encontro, a revelação da culpa e o generoso perdão do enamorado – ou seja, o triunfo do amor. Também ouvimos, de Felix Mendelssohn-Bartholdy, a Sinfonia nº 2 em Si Bemol maior, Op. 52. Não sou fã de Mendelssohn, um compositor, em minha opinião, apenas elegante. Mas foi impossível não ser contagiado pelo coro da Osesp e, principalmente, pela soprano Christina Landshamer, a melhor surpresa da noite: voz límpida, com uma sonoridade que em nenhum momento soou áspera ou cortante.

Mas Peter Flor reservava momentos ainda melhores. Ontem, fui surpreendido pela Sinfonia nº 2 em dó menor, Op. 27 de Josef Suk, um compositor desconhecido para mim. Conversando com Lauro Machado Coelho, ele me alertou: que eu estivesse preparado para fortes emoções, pois a sinfonia nascera do impacto de duas mortes – a de Dvorák, mestre de Suk, e a de Otilie Dvoráková, filha de Dvorák e esposa de Suk –, e o compositor havia concentrado nos cinco movimentos o absurdo de perder as pessoas que amava, o desespero, a revolta e, por fim, a resignada superação do luto. É, de fato, música espantosa, capaz de nos levar da indignação ao compartilhamento da dor.

Minha expectativa, no entanto, concentrava-se, desde o início da temporada, no Concerto nº 1 para piano, de Brahms. Passei os últimos dias ouvindo novamente as gravações que tenho aqui, com Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Claudio Arrau, tentando captar as diferenças de interpretação, principalmente no adágio, o movimento que mais aprecio. Ontem, no entanto, ao ouvir Arnaldo Cohen, todas as nuanças desapareceram – e pude reviver o que já experimentara no ano passado, quando ouvi Cohen no Quinteto em fá menor de Brahms: ele é de uma virtuosidade, de um talento deslumbrante (e não há qualquer exagero neste adjetivo). Foi uma experiência inesquecível vê-lo, durante o concerto, trocar sorrisos com Peter Flor, demonstrando a perfeita unidade a que chegaram. E fiz questão de, na saída, cumprimentar Cohen e, principalmente, agradecer-lhe pela oportunidade de ouvir um pianista extraordinário interpretando meu compositor favorito: o “revolucionário conservador” Brahms.

Maio 20, 2009

Liberal, didático, sensato

Neoliberal, não. Liberal é um livro despretensioso – mas obrigatório. Seu autor, o jornalista Carlos Alberto Sardenberg, reuniu nesse volume textos didáticos que jamais apelam a simplismos e não abrem mão da defesa dos valores liberais. E o que poderia ser melhor em um país no qual as leis imobilizam o mercado e a livre concorrência, onde o governo conseguiu a proeza de criar uma nova ideologia, o “neoliberalismo de esquerda fisiológico”? A irônica definição não é minha, mas de Sardenberg.

Com linguagem direta, clara, o livro traz aulas que se opõem, saudavelmente, ao socialismo, ideologia tão em voga neste país, mostrando que tal bandeira – “acabada, destruída como realidade e utopia” – serve apenas à demagogia e ao populismo. Artimanhas nas quais, aliás, o partido hoje no poder se esmerou, treinando nos palanques e nos sindicatos por décadas.

Um dos melhores textos do livro, “Adam Smith vive aqui”, explica como a busca dos próprios interesses e da satisfação das necessidades pessoais pode gerar riqueza para o empreendedor e à comunidade. Sardenberg parte de um exemplo colhido nas favelas de São Paulo, onde certa moradora, sensível e inteligente, sem esperar por benesses governamentais, montou uma lan house na cozinha de sua casa. Esse tipo de história, no entanto, não agrada aos defensores da caridade feita com dinheiro público. Para eles, o Programa Bolsa Família não é uma escola de imobilismo, não é a forma cínica de garantir eleitorado fiel e cego, mas trata-se de um passo a mais na direção do socialismo tupiniquim. Sardenberg, no entanto, expressa lucidez sobre a questão e sintetiza: “Um modelo econômico que fornece educação de qualidade e gera empregos não precisa dar comida, pois fornece às pessoas meios mais eficientes e duradouros”.

Em “Quinze anos com a mesma política econômica”, o jornalista nos oferece boa retrospectiva do período FHC–Lula. Sardenberg não doura a pílula, escreve com imparcialidade, sem maniqueísmos, mostrando de que maneira um conjunto de fatores provocou a virada estratégica da economia brasileira – e como as mudanças de discurso do PT sempre obedeceram a interesses eleitoreiros.

Mas Sardenberg não escreve apenas sobre economia e política. Sua visão de uma sociedade realmente liberal, que ele expõe ao tratar dos acidentes de trânsito e da proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias, defende a liberdade de consumo, o direito individual, e, ao mesmo tempo, punições que “desabem sobre o indivíduo que desrespeitou a lei e prejudicou os outros”. Ou seja, exatamente o contrário do que temos no Brasil, onde viceja “um conjunto de arbitrariedades ineficientes”.

A escrita de Sardenberg traz o mesmo estilo que ele tem imprimido, há algumas semanas, ao Jornal das Dez, no Canal Globo News: nenhuma histrionice, nada de trejeitos exagerados, gesticulação exaltada ou bruscas modulações de voz – características, aliás, que sobram em alguns apresentadores daquele noticioso. Sardenberg, ao contrário, transpira equilíbrio, sensatez.

Sem usar subterfúgios, as teses de Neoliberal, não. Liberal desagradam, com certeza, aos esquerdistas. E exatamente por esse motivo estão imbuídas de um profundo sentido de realidade.

Maio 18, 2009

Enlutado


Morreu Mario Benedetti, uma das grandes vozes da literatura latino-americana, infelizmente pouco traduzido no Brasil. Repetitivo e previsível ao falar de política – sempre militou na esquerda –, foi genial quando escreveu sobre o amor.

Analisei seu livro A trégua em 2007, para o Rascunho: novela que trata de um amor outonal (e do caráter transitório da felicidade), une Martín Santomé, de 50 anos, e a jovem Laura Avellaneda. Para os que conhecem o final do livro, coloco abaixo o poema "Última noción de Laura", que Benedetti escreveu vários anos depois de publicar a obra, diante da insistência de seus leitores.

Para o jornalista Juan Cruz, do El País, Mario Benedetti tinha o olhar de quem nunca se acostumou ao mundo.


Última noción de Laura

A Ana Maria Picchio

Usted martín santomé no sabe
cómo querría tener yo ahora
todo el tiempo del mundo para quererlo
pero no voy a convocarlo junto a mí
ya que aún en el caso de que no estuviera
todavia muriéndome
entonces moriría
sólo de aproximarme a su tristeza

usted martín santomé no sabe
cuánto he luchado por seguir viviendo
cómo he querido vivir para vivirlo
pero debo ser floja incitadora de vida
porque me estoy muriendo santomé

usted claro no sabe
ya que nunca lo he dicho
ni siquiera
esas noches en que usted me descubre
con sus manos incrédulas y libres
usted no sabe cómo yo valoro
su sencillo coraje de quererme

usted martín santomé no sabe
y sé que no lo sabe
porque he visto sus ojos
despejando
la incógnita del miedo

no sabe que no es viejo
que no podría serlo
en todo caso allá usted con sus años
yo estoy segura de quererlo así

usted martín santomé no sabe
qué bien qué lindo dice
avellaneda
de algún modo ha inventado
mi nombre con su amor

usted es la respuesta que yo esperaba
a una pregunta que nunca he formulado
usted es mi hombre
y yo la que abandono
usted es mi hombre
y yo la que flaqueo

usted martín santomé no sabe
al menos no lo sabe en esta espera
qué triste es ver cerrarse la alegría
sin previo aviso
de un brutal protazo

es raro
pero siento
que me voy alejando
de usted y de mí
que estábamos tan cerca
de mí y de usted

quizá porque vivir es eso
es estar cerca
y yo me estoy muriendo
santomé
no sabe usted
qué oscura
qué lejos
qué callada
usted
martín
martín cómo era
los nombres se me caen
yo misma estoy cayendo

usted de todos modos
no sabe ni imagina
qué sola va a quedar
mi muerte
sin
su
vi
da.

Maio 16, 2009

Introdução ao trágico


Li, há alguns meses, Será o Benedito! (Editora Cosac Naify), de Mário de Andrade, narrativa entre a crônica e o conto, ilustrada por Odilon Moraes (coloco, acima, um exemplo do notável trabalho do ilustrador).

O veludo da prosa de Mário está todo ali, naqueles poucos parágrafos, ensinando como a língua portuguesa pode contradizer o “inculta” do verso bilaquiano – e, principalmente, como o belo despreza afetações.

Hospedando-se, durante alguns dias, na fazenda de um conhecido, o narrador estabelece amizade com um garoto – “o negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo”. A princípio acanhado, o menino sequer enfrenta o olhar do homem da cidade; e reage de maneira imprevista, disparando propriedade afora: “Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar”.

O trecho acima é um bom exemplo do estilo de Mário: o encadeamento das frases, pontuadas por escolhas lingüísticas precisas – “macaco-aranha”, “mexe-mexe”, a repetição do substantivo “pernas” –, dá vida, com perfeição, à correria do garoto.

A narrativa é construída sobre o par campo/cidade, rural/urbano, no qual os elementos estão em permanente desacordo. O menino tem na cidade a sua “única obsessão” – e o narrador lhe apresenta a vida urbana, repetidamente, como símbolo do mal e da morte. O narrador, aliás, é taxativo sobre os malefícios da urbe: magro como é, o garoto morreria, com certeza, de tuberculose.

Resignado, “com profunda melancolia”, o garoto aceita permanecer na fazenda. O narrador parte. Duas semanas depois, uma carta anuncia a morte do menino, vítima “de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca”. A última frase do texto revela, então, o porquê da narrativa: “É o remorso comovido que me faz celebrá-lo aqui”.

História tristíssima, como se vê, devedora da lição aristotélica sobre a tragédia: “ação causadora de destruição ou dor”. A inexorabilidade do destino apresenta-se com terrível desfaçatez: tentando preservar a criança em seu locus amoenus, o bondoso protetor na verdade a condena. O azar se impõe como resultado das boas intenções – e o inocente é lançado ao precipício.

A injustiça iminente, aliás, já havia sido antecipada pelo narrador, quando, diante das histórias de arranha-céus, cantores de rádio e chauffeurs, ele diz que “Benedito me mostrava os dentes do seu riso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam numa brancura sem par”.

A resignação do narrador não só fecha a tragédia, mas a complementa: o que fazer diante de seu erro involuntário, a não ser experimentar, em silêncio, o vazio? Muitas vezes, o terror que o trágico impinge ao homem sequer lhe dá o direito de se desesperar.

Impossível não descobrir certa ironia no fato de a história ter sido publicada em uma coleção infanto-juvenil. Não se tratou, contudo, de escolha errada. Ao contrário, crianças e jovens, mais que apresentados ao gênero da tragédia, devem ser introduzidos aos mistérios do trágico, esse caráter indissociável da vida. E se for pelas mãos de Mário de Andrade, tanto melhor.

Maio 13, 2009

Arquivo Maaravi

Minha resenha sobre Jó – romance de um homem simples, de Joseph Roth, acaba de ser publicada no nº 4 da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos (da Universidade Federal de Minas Gerais).

Convidado pela Profª Lyslei Nascimento, editora da publicação, enviei o texto de pronto, afinal, são pouquíssimas as revistas que apresentam uma proposta editorial tão sedutora.

O nome, Maaravi, vem de Kotel haMaaravi – o Muro Ocidental ou das Lamentações, em Jerusalém. Ruína do Templo destruído pelos romanos, o muro testemunhou séculos de história, transformando-se em um arquivo da memória judaica. Ali, os fiéis inserem, nas fendas entre as pedras, pequenos pedaços de papel com pedidos e orações.

Mas deixo vocês com o texto de apresentação da revista. Ele tem uma eloqüência contagiante:

Esse arquivo de pedras é um lugar de culto e de adoração. Os judeus ortodoxos, com seus trajes e chapéus negros, movimentam o corpo e movem seus lábios em orações diante dele. Os jovens soldados israelenses fazem ali seu voto de amor à pátria. Pais e filhos renovam, ano após ano, sua aliança com o Eterno. O Templo, que sobrevive metonimicamente nessa parede, é a casa do Messias, a promessa da construção do terceiro Templo e do corpo judaico que foi disperso nas diásporas e exílios.

Tal qual o Muro Ocidental, onde os textos são inseridos nas fendas, a Arquivo Maaravi – Revista Digital de Estudos Judaicos – espera acolher trabalhos de escritores e artistas que se dedicam aos Estudos Judaicos desde o Ocidente até o Oriente.

A proposta da revista, que passa pela concepção da tradição judaica com seu léxico, procedimentos e temas, como um arquivo aberto, ou como a Biblioteca de Borges, não é aqui concebido como o acúmulo de documentos inertes de um passado perdido ou como um testemunho petrificado de uma identidade perdida.

O arquivo da cultura judaica, que aqui tomamos através da metáfora do Kotel, espera lidar com o passado como estrelas próximas, ou muito longínquas, arcaicas até, que vêm até nós através de um certo rastro luminoso, ou, com o presente e o futuro, que podem se apresentar em todo o seu fulgor através de vestígios, como queria Walter Benjamin.

Entre a lembrança e o esquecimento, o arquivo judaico não poderá, assim, ser analisado, descrito ou reinventado a partir de uma obsessão milimétrica, mas a partir de fragmentos, regiões, níveis. Composto por diferentes obras, o arquivo judaico perpassa, onipresente, livros dispersos, delineando uma rede de textos que pertencem a uma tradição de autores que se conhecem ou se ignoram, estabelecendo conexões as mais inusitadas; autores que se criticam, invalidam-se uns aos outros, plagiam-se e, ao mesmo tempo, a despeito de suas vontades, reencontram-se, às vezes sem saber, no território de papel da literatura ou no campo plástico da arte.

Maio 11, 2009

George Steiner e David Hume

Há poucos meses, uma declaração de George Steiner provocou polêmica na Europa. Steiner teria dito que “é muito fácil sentar-se aqui, nesta casa, e dizer: ‘– O racismo é horrível!’. Mas pergunte-me o mesmo se uma família de jamaicanos se mudar para a casa ao lado com seis filhos que escutam reggae e rock and roll o dia inteiro [...]”. O grande ensaísta terminava a afirmação salientando o fato de que, caso tal família se tornasse sua vizinha, seu próprio imóvel perderia, com certeza, grande parte do valor.

Vivendo sob o império do politicamente correto, Steiner foi acusado, é claro, de racismo. Os intelectuais de esquerda ficariam felizes se ele tivesse dito que, no caso de um dia ter vizinhos desse tipo, se submeteria de bom grado à barulheira, recusando o direito de desfrutar do silêncio em nome de viver uma inusitada experiência multicultural. E que, quando fosse avisado sobre a deterioração do valor de seu imóvel, o transformaria, com prazer, num abrigo para imigrantes desempregados.

São tempos estranhos e inseguros os nossos, pois, segundo a opinião de muitos, deveríamos nos dar por felizes quando temos o bem-estar e o silêncio violentados – ou quando a propriedade que adquirimos com imensos sacrifícios é desvalorizada da noite para o dia. No entanto, sabemos que todo o problema nasceu do exemplo citado por Steiner: se, no lugar de “jamaicanos”, tivesse dito “portugueses” ou “austríacos”, sem citar nenhum estilo de música em especial, poucos reclamariam.

David Hume não sofria esse tipo de patrulhamento. Em seu ensaio Da simplicidade e do requinte na maneira de escrever pôde afirmar, sem receio, que “os gracejos de um aguadeiro, as observações de um camponês e a linguagem confusa de um carregador ou de um cocheiro de praça são coisas naturais e desagradáveis, simultaneamente”. O exemplo não foi gratuito. Hume o utiliza para defender uma tese simples: a literatura que apenas reproduz a realidade, que é uma cópia fiel do real, é, no mínimo, insípida.

Ele também critica o oposto: os escritores que recorrem a ornamentos estilísticos quando o assunto de que tratam não comporta tais maneirismos. Buscando um “meio termo justo entre os excessos de requinte e de simplicidade”, ele afirma, no entanto, “ser difícil, senão impossível, explicar por palavras” como chegar a tal equilíbrio. Mas salienta que o “exagero do requinte, além de ser o extremo menos ‘belo’, é o mais ‘perigoso’”.

Suspeito, entretanto, que o filósofo escreveria de outra forma se vivesse hoje no Brasil. Imagino-o suplicando aos escritores para que parassem de escrever como aguadeiros, camponeses, carregadores e cocheiros. E, repetindo novamente a lição de Joseph Addison, diria: “Escrevam com sentimentos naturais, mas que não sejam óbvios”.