Dezembro 05, 2009

A Osesp sob o comando de Frank Shipway

Ainda que a plateia tenha delirado com O festim de Baltazar, de William Walton (ouvi a peça tendo a impressão, durante alguns trechos, de estar assistindo a um filme de Cecil B. DeMille), o melhor momento da noite, nesta última quinta-feira, foi a Sinfonia nº 29 em lá maior, de Mozart. Sob a regência de Frank Shipway, a orquestra tocou com, digamos, sabedoria. O Andante, de extrema delicadeza, e o lirismo às vezes quase infantil de Mozart, que nos dá uma insuperável sensação de jovialidade, como se a alegria pudesse subsistir para além daqueles minutos em que nos protegemos na sala de concerto: Shipway conseguiu extrair da orquestra os sons, as variações mais tênues. Com um currículo impressionante, ele rege destilando a dignidade que se espera de um grande maestro, e demonstra, a cada gesto, não só dar o melhor de si, mas realmente dialogar com a orquestra; um diálogo não apenas profícuo, mas que obteve da Osesp o que ela tem de melhor. E ao final da programação, o observador atento pôde perceber como a própria orquestra agradecia ao regente por ter feito o que, neste ano de 2009, nenhum outro conseguiu fazer.

Dezembro 04, 2009

Desperdício

O populismo é mestre em esbanjar dinheiro público de maneira irresponsável. O Vale Cultura, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, só reafirma como é fácil fazer demagogia com o dinheiro dos contribuintes e ainda rotulá-la de "política de incentivo à cultura". O dinheiro poderá ser usado, inclusive, para se comprar revistas, jornais e gibis. Como vemos, a preocupação governamental está profundamente ligada à educação das massas...

Dezembro 02, 2009

Em defesa do individualismo

Os méritos literários de Ayn Rand estão longe de ser excepcionais, mas seus romances – The Fountainhead (A Nascente) e Atlas Shrugged (Quem é John Gault?) – têm o poder de resgatar a ambição, a luta pela independência pessoal, a autoconfiança e o individualismo do limbo em que a esquerda pretende soterrar essas qualidades.

Se a esquerda pudesse, pintaria o mundo (incluindo a natureza) de um único tom de cinza – e submeteria a humanidade não só a uma forma de pensamento única, sempre igual, monocórdia, servil, mas principalmente a um governo em que apenas os bajuladores, os cérebros mais abjetos, teriam direito a progredir.

Ayn Rand mostra, em sua apaixonante defesa do capitalismo e do liberalismo, que quando os homens abdicam da liberdade, submetendo-se à vontade da maioria, do coletivo, eles simplesmente cometem suicídio.

Abaixo, na entrevista que concedeu a Jorge Pontual (da Globo News), a escritora Anne Heller, que acaba de lançar nos EUA uma biografia de Ayn Rand, explica detalhes do pensamento dessa filósofa e romancista que continua a empolgar leitores de todo o mundo, ainda que seus livros principais tenham sido lançados entre as décadas de 1930 e 1960.

Dezembro 01, 2009

Senso comum e arte

Voltando às minhas leituras de William Hazlitt, coloco a seguir um dos bons trechos do ensaio “Por que as artes não evoluem?”, de 1814. Temo que minha tradução não seja exemplar, mas certamente permitirá aos interessados descobrir um pouco desse crítico infelizmente nunca divulgado no Brasil:

“O princípio do sufrágio universal, por mais aplicável que seja a questões de governo, que têm a ver com os sentimentos e os interesses comuns da sociedade, não é aplicável, de modo algum, aos assuntos do gosto, pois, estes, só podem julgá-los os espíritos mais refinados. A humanidade nunca pôde entender completamente os maiores esforços do gênio, em qualquer uma das artes. Há uma infinidade de belezas e verdades muito além da sua compreensão, que chegam a ser comuns no mundo porque o refinamento e a sublimidade se misturam com outras qualidades, de natureza mais óbvia e vulgar. O gosto constitui o grau mais elevado da sensibilidade, assim como a impressão que atua sobre as mentes mais refinadas, da mesma forma que o gênio é o resultado da força do sentimento e da invenção. Pode-se dizer, no entanto, que o gosto público é suscetível de uma melhora gradual, pois o povo termina fazendo justiça às obras de maior mérito. Semelhante ideia é um erro. A reputação que, ao final, e quase sempre lentamente, se concede às obras de gênio provém da autoridade, não do assentimento popular nem do senso comum do mundo.”

Novembro 30, 2009

O avanço do Islã sobre a Europa

“[...] O número de mesquitas na França cresceu de cerca de 260 na metade da década de 1980 para mais de duas mil hoje. Há algumas mesquitas grandes em cidades como Paris, Marselha e Lyon, mas a maioria é pequena e o mesmo vale para a Alemanha e outros países europeus. A Alemanha tinha aproximadamente setecentas mesquitas de pequeno porte ou salões de oração nos anos 1980, mas são mais de 2.500 nos dias atuais. Havia 584 ‘mesquitas certificadas’ na Grã-Bretanha em 1999, mas o número real no presente é de pelo menos duas mil; em Birmingham, a segunda maior cidade da Inglaterra, existem atualmente mais mesquitas do que igrejas, apesar de muito menores. Pode ser que haja, agora, mais muçulmanos praticantes na Grã-Bretanha do que membros da Igreja da Inglaterra."

(in Os últimos dias da Europa - epitáfio para um velho continente, de Walter Laqueur)

Novembro 29, 2009

Contra os minaretes

Ainda há esperança para a Europa cristã e para a democracia. Contra as demagogices do multiculturalismo, a Suíça aprovou a proibição de se construir minaretes nas futuras mesquitas do país. É a primeira nação que demonstra coragem para impedir o avanço da sharia sobre os valores ocidentais. A Europa começa a acordar?

Observação (em 1º de dezembro de 2009): vale a pena ler o artigo de João Pereira Coutinho, que, com seu característico equilíbrio, fala sobre o tema.

Novembro 28, 2009

Ensino de literatura e Internet

Convidado por meu amigo Antonio Carlos Olivieri, participei do projeto Livro Aberto, cujo objetivo é, utilizando os recursos da Internet, despertar a curiosidade dos alunos do ensino médio para a literatura brasileira. Nesta sua primeira fase, o projeto enfocou os livros selecionados para o vestibular da Fuvest.

Minha participação, divertidíssima, se restringiu a interpretar este ou aquele personagem. Mas o melhor foi conhecer pessoas animadas, cheias de entusiasmo, que amam seu trabalho e a literatura nacional.

Os podcasts já estão na web – e têm tudo para ser uma porta de entrada dos jovens à literatura. Confiram:

“Memórias de um Sargento de Milícias”, Manuel Antônio de Almeida
“Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente
“Iracema”, José de Alencar
“Dom Casmurro”, Machado de Assis
“O Cortiço”, Aluísio Azevedo
“A Cidade e as Serras”, Eça de Queirós
“Vidas Secas”, Graciliano Ramos
“Capitães da Areia”, Jorge Amado
“Antologia Poética”, Vinicius de Moraes

Novembro 27, 2009

Vulgaridade, vulgaridade, vulgaridade

Da expressão lapidar do ministro da Cultura, dissecando em público o próprio corpo, a fim de defender seu emocionalismo intransigente, ao artigo de César Benjamin, na edição de hoje da Folha de S. Paulo, no qual testemunha sobre uma possível característica repulsiva do presidente da República, passando por certa mensagem publicitária de papel higiênico, que transformou as duas principais figuras do governo federal em garotos-propaganda à porta de uma latrina, e sem esquecer todas as expressões chulas que se tornaram, nos últimos anos, a principal muleta linguística dos discursos presidenciais, “nunca antes neste país” chafurdamos tanto na lama da vulgaridade, da grosseria.

A massa certamente se delicia e se espoja nesse espetáculo de sordidez, mas nós, que ainda exercemos a capacidade de julgar, devemos manter distância desse circo de escatologias, ainda que nossas opções sejam poucas: a ingestão de um emético diário – ou recordar com altivez, depois da leitura de mais um capítulo de William Hazlitt, o provérbio latino: Vulgus vult decipi, ergo decipiatur (O povo quer ser enganado, pois que o seja).

Novembro 26, 2009

William Hazlitt, a Bolsa Escritor e a missão do crítico literário

Vivemos numa época estranha, na qual, dentre outros fenômenos excêntricos, parte significativa da crítica literária demonstra receio de qualificar, de exercer um julgamento. Como escrevi certa vez, a maior parte dos críticos e resenhistas se protege atrás de um dialeto acadêmico que, ao fim e ao cabo, nada explicita. Há muito de covardia intelectual nesse comportamento – e, percebo, uma boa dose de esperteza macunaímica, que se utiliza da linguagem hermética para se arrogar uma suposta hegemonia científica, disfarçada de imparcialidade, mas que, no fundo, esconde o medo de desagradar, de ferir vaidades.

Nos últimos anos, todos esses sintomas pioraram, pois grande parte dos críticos e resenhistas, seguindo a tendência geral do país, prefere se colocar no papel de pajem da demagogia, do populismo. Assim, eles se esmeram em distribuir análises (sempre análises, nunca julgamentos!) e elogios, como se estes conformassem um tipo curioso de Bolsa Família, a Bolsa Escritor, esmola para agradar copistas que, talvez, preferissem receber sua parte na forma de papel-moeda.

Em épocas assim, o melhor que podemos fazer é nos dedicar à leitura dos melhores críticos, o que nos ajuda a estabelecer uma barreira de lucidez, um filtro capaz de separar a moda passageira daquelas produções que nunca morrerão, às quais a humanidade, de tempos em tempos, sempre retorna, sedenta de verdade, ciência e beleza.

É o caso de William Hazlitt, que tenho relido com imenso prazer, amigo de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, mas que não se furtou a criticá-los duramente quando considerou que abdicavam de seus princípios estéticos, aderindo ao fácil, ao senso comum.

Otto Maria Carpeaux considerava Hazlitt um dos três principais intérpretes românticos de Shakespeare, ao lado de August Wilhelm Schlegel e Coleridge. E os leitores de Harold Bloom certamente lembram das inúmeras referências que ele faz a esse crítico cujo valor se iguala ao de outro gênio, Samuel Johnson, do qual Hazlitt não gostava.

Esse inglês é um ironista formidável, cuja linguagem, refinada e sem afetação, nos prende desde a primeira linha. Jacques Barzun diz que Hazlitt só tem um desejo: “fazer-nos leitores tão bons quanto ele”. É a missão que todo verdadeiro crítico literário deveria impor a si mesmo; inclusive porque essa é a única tarefa – extremamente honrosa, essencial para a formação dos leitores e para a vida cultural do país – que lhe cabe. O resto são firulas que alimentam a jactanciosidade no presente, mas estão condenadas a, no futuro, serem completamente esquecidas.

Novembro 25, 2009

Críticas severas, mas bem-humoradas

O economista e escritor Peter Schiff, presidente da corretora Euro Pacific Capital (EUA), seguidor dos ensinamentos de Frederick August von Hayek e Ludwig von Mises, desenha um retrospecto da crise econômica, avalia os governos norte-americanos mais recentes, faz críticas severas à política econômica de Obama e prenuncia novas dificuldades para o futuro. Tudo com bom humor e percuciência. Vale a pena assistir: aqui.

Novembro 20, 2009

Uma questão de coragem

O Brasil recebe, com honras de chefe de Estado, na próxima segunda-feira, o antissemita Mahmoud Ahmadinejad, fervoroso patrocinador do terrorismo muçulmano e presidente de um país no qual a religião está acima da política – ou seja, a fé cega é superior à liberdade.

Para comemorar mais essa genuflexão da diplomacia e do governo brasileiros, Reinaldo Azevedo publicou o post “Uma descompostura fabulosa no facinoroso”, no qual traduz, praticamente na íntegra, o discurso com que o reitor da Universidade de Columbia (EUA), Lee Bollinger, recepcionou Ahmadinejad, quando este, em 24 de setembro de 2007, falou num evento da Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da instituição.

O post é longo, mas merece leitura atenta. O texto termina com a pergunta de Reinaldo, sobre quem, no Brasil, teria coragem de dizer essas verdades a Ahmadinejad.

De minha parte, prefiro fazer uma questão mais específica: quem, dentre os jornalistas e intelectuais brasileiros, teria coragem de divulgar esse discurso, de se contrapor às vozes oficiais do nosso Estado? Quem, neste país, ainda tem coragem para NÃO ficar de joelhos diante do governo? Dentre os raros que podem ser citados, sem dúvida está Reinaldo Azevedo.

Novembro 19, 2009

Como Javier Marías vê o mundo hoje

Uma das grandes vozes da literatura contemporânea, Javier Marías fala dos governantes medíocres e descarados:

Veo el mundo muy decadente. Basta con mirar alrededor. Berlusconi, Sarkozy, los Kirchner, Chávez o la corrupción en España. Gente mediocre y desfachatada. Tengo la sensación de un envilecimiento general de las poblaciones. Ojalá no tenga nada que ver con lo que se produjo en los años treinta. Ahora hay una especie de pragmatismo, de falta de escándalo; una tendencia a darle importancia a lo que no lo tiene y a no dársela a lo que quizá sí.

Mas ele também fala sobre literatura, seu processo de criação e o livro que está escrevendo: na edição do El País de hoje.

Novembro 18, 2009

“Não podemos cair em utopias regressivas”

Em alguns casos, a distância do poder concede sabedoria ao político. Não que essa qualidade tenha faltado a Fernando Henrique Cardoso durante os seus oitos anos como presidente da República, mas agora, comparando aquele período ao atual, exercido por meio de um populismo desagregador, vemos bem a falta que nos faz um verdadeiro estadista.

Diante da entrevista que FHC concedeu ao jornal El País, traduzida no UOL Notícias, devo penitenciar-me dos inúmeros erros de avaliação que cometi, principalmente no início de seu primeiro governo, em 1995, quando, ainda militando no PT, eu apenas repetia os velhos chavões da esquerda e pautava-me mais pelo rancor típico dos esquerdistas do que pelo bom senso.

Leiam, por exemplo, o trecho abaixo. Vejam como FHC avalia a realidade de maneira correta e equilibrada:

El País: Onde estão os pensadores que têm de refletir em épocas de crise?

Cardoso: Em casa. E há necessidade de intelectuais com brio, gente que pense grande e dialogue com a sociedade. O que há são negativistas, têm o faro virado para trás. É preciso olhar para a frente, aceitar que a globalização está aí, que a Internet está aí, que há novas formas de produção, de comunicação. Não podemos cair em utopias regressivas [...].

Novembro 17, 2009

A volta de Robert Nozick

Odiado pela esquerda e há muitos anos esgotado no Brasil, o clássico Anarquia, Estado e Utopia, de Robert Nozick, acaba de ganhar nova edição pela Edições 70, de Lisboa. Os interessados podem ler, na Revista Crítica, a introdução ao livro, escrita pelo professor João Cardoso Rosas, da Universidade do Minho.

Se Nozick despertar o interesse de vocês, recomendo vivamente a leitura do ensaio “Por que os intelectuais se opõem ao capitalismo?”, disponível no ótimo Ordem Livre.

Novembro 15, 2009

A República que não existe

Na República dos meus sonhos há uma fórmula pétrea: 1 cidadão = 1 voto. Sem esse princípio básico, não há verdadeira democracia, mas apenas manipulação – exatamente o que fazem neste país por meio da chamada “proporcionalidade”, que concede, nas eleições ao legislativo federal, mais ou menos poder a este ou aquele cidadão, a depender do estado em que ele reside. Sílvio Romero estava certo:

“Aos que exerceram o monopólio de nos governar em nome do direito divino dos reis, sucederam os que exercem o mesmo monopólio em nome da esperteza, da audácia, da mentira, da corrupção. Contra esses é que é preciso bater, bater, bater, no intuito de desbravar o caminho dos tropeços que o entulham”. (In O Brasil dos meus sonhos.)

Novembro 13, 2009

Causas do apagão

Eu estava nas ruas de São Paulo quando ocorreu o blecaute – e não foi nada agradável a sensação de completa insegurança que experimentei e pude constatar em centenas de outras pessoas.

É fácil para o subperonismo lulista – a expressão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é perfeita em sua síntese – simplesmente dar o caso por encerrado, como se não lhe coubesse qualquer responsabilidade ou, no mínimo, uma palavra de desculpa pelo transtorno causado a milhares de pessoas.

Mas se você, caro leitor, fica se perguntando por qual motivo o insigne presidente não vem a público e faz mais um dos seus discursinhos demagógicos, repletos de linguajar grosseiro, sorrisos ensaiados e ironias fáceis, leia a primeira parte do texto de Malu Gaspar, chefe da sucursal da revista Exame no Rio de Janeiro. Muitas coisas começarão a ficar claras.

[E aqui, a segunda parte da criteriosa análise de Malu Gaspar.]

Novembro 08, 2009

Felinocracia

O que é viver sob a irritante ditadura dos gatos:

Novembro 06, 2009

Sunt lacrimae rerum

“Há lágrimas nas coisas”, diz Virgílio na Eneida. Essa é a epígrafe de Os desaparecidos – A procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, de Daniel Mendelsohn, que analiso no Rascunho de novembro.

Novembro 02, 2009

Finados

Não me recordo de tê-la visto um único dia sem o vestido preto. Altiva, digna, afável mas imperiosa, o luto era seu emblema, o pendão de nobreza por meio do qual ostentava seus valores – mortos, sempre mortos para quase todos. Mas ela não se escandalizava por saber que era próprio da maioria corromper-se, mentir, difamar, esquecer. Não lhe parecia estranho que seus iguais se reduzissem a algumas poucas pessoas, e demonstrava, em cada gesto, estar além das mesquinharias. Nunca permitiu que o desdém manchasse sua superioridade. Era a mesma com a japonesa que, no mercado, lhe vendia frutas, com a lavadeira baixinha e rubicunda que a visitava semanalmente, com os notáveis da cidade. Eu pedia sua bênção, beijando a mão perfumada, certo de não apenas repetir um condicionamento, mas para adentrar de algum modo àquele mundo sóbrio, delicado e regenerador que ela comandava. O ceticismo lhe caía tão bem quanto a redinha com que prendia os cabelos grisalhos; e do alto dos seus noventa anos ela podia ensinar-me que medir os homens a distância, sem escravizar-se às estreitezas de espírito, era o imperativo da fidalguia e, principalmente, da liberdade. Conceder todos os obséquios, sem jamais pedir um favor; ser amável com quem lhe solicitasse atenção, sem nunca mendigar qualquer mínima gentileza; e, acima de tudo, ordenar a conduta segundo o lema imemorial: Noblesse oblige. Assim, a mecânica ordinária do mundo dissolvia-se frente à dignidade de minha bisavó, cujo poder neutralizava a rudeza e todas as formas de incorreção. Seu túmulo é um dos poucos a que eu me dirigiria hoje, repetindo a peregrinação que ela própria empreendeu, semanalmente, para rememorar o primogênito morto aos 46 anos. E de joelhos, aos pés do sepulcro, eu lhe agradeceria pelas lições transmitidas com brandura e sutileza, pelo asteísmo de sua fala, que desmontava falsas certezas, e pelos cafés servidos na velha louça inglesa ao final da tarde, quando nós dois, sentados na pequena cozinha, visitávamos o mundo empunhando a lanterna de Diógenes.

Novembro 01, 2009

Em berço esplêndido

Segundo a PricewaterhouseCoopers, a América Latina é a região do mundo em que menos se adquire livros: do total de obras comercializado no mundo em 2008, apenas 4,14% das vendas ocorreram em nosso continente. Dessa fatia minúscula, 70% corresponde a gastos feitos no Brasil.

Os dados são desanimadores: o brasileiro gasta, por ano, a média de US$ 19 com livros. Na França, um cidadão despende, anualmente, US$ 144. Em Israel, US$ 139.

Para essa grave deficiência, não há discurso demagógico, PAC, Bolsa Família ou qualquer outro programa populista que mascare a realidade. Só elevados gastos em educação, durante várias décadas, podem mudar esses números. Ou seja: aguardemos deitados em berço esplêndido.

Outubro 31, 2009

Tranquilidade


Minhas preferências musicais se inclinam sempre na direção da música de câmara e dos lieder. Não que eu desgoste das grandes sinfonias, mas, antes, prefiro os concertos; e, em primeiro lugar, os pequenos grupos de executantes, que me proporcionam uma agradável sensação de aconchego, tranquilidade. No caso da música lírica ocorre o mesmo: aprecio a ópera, mas os lieder e os duetos, íntimos, breves e líricos, me cativam. Hoje, desde o início da manhã, escuto Marilyn Schmiege e Julie Kaufmann interpretando as deliciosas canções de Brahms, o que torna a vida, no mínimo, mais suportável.

Outubro 30, 2009

Um aperitivo

A Editora Cosac Naify disponibilizou, no início deste mês, algumas páginas da tradução de Guerra e paz, de Liev Tolstói, que Rubens Figueiredo está produzindo.

Será terrível esperar até fins de 2010 pelo livro, mas, olhando para o que o tradutor nos ofereceu em Anna Kariênina, minhas expectativas serão plenamente recompensadas.

Outubro 28, 2009

Narratofobia

No Rascunho deste mês, meu ensaio sobre a paúra de narrar:

[...] parte da produção literária distanciou-se radicalmente do receptor da mensagem, do leitor, transformando-o em um ser incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades.

Outubro 25, 2009

Etéreo Brahms

Devoto meu domingo ao sagrado prazer de ouvir Brahms, principalmente suas composições de câmara. Em Brahms realiza-se, plenamente, o que diz Emil Cioran sobre a música:

É a única arte que dá um sentido à palavra absoluto. É o absoluto vivido; vivido, entretanto, por meio de uma grande ilusão, pois se dissipa assim que se restabelece o silêncio. É um absoluto efêmero, em suma um paradoxo. [...] A música é a linguagem da transcendência. [...] A música é um universo infinitamente real, ainda que inapreensível e evanescente. Um indivíduo que não pode aí penetrar, por ser insensível a essa magia, está privado da própria razão de existir. O supremo lhe é inacessível. Só a compreendem aqueles a quem ela é indispensável. A música deve enlouquecer, senão é nada.

E que venerável, santa forma de loucura Brahms me proporciona!

Outubro 24, 2009

A lucidez de Guilherme Valente

Um dos mais respeitáveis editores de língua portuguesa, Guilherme Valente, editor da famosa Gradiva, de Portugal, critica José Saramago. E o faz com extrema acuidade:

Saramago é, quanto a mim, um escritor engenhoso, mas elementar e habilmente lamecha, que, em termos de ideias, escreve e fala para um público pouco culto, cuja ignorância explora, para cujos juízos mal informados, ideológicos, sectários ou primários, apela, obscurecendo, em vez de (o) iluminar. [...]

Quando fala da Bíblia, de ciência, das viagens de exploração do Universo, ou de Castro, ou de tantas outras matérias sobre as quais regularmente diz, sempre no mesmo tom teocrático, enormidades, a minha dúvida é se ele é mesmo tão limitado intelectualmente como parece, ou se não se tratará de um sacrifício pulsional da inteligência e do conhecimento. [...]


Aqui, para aqueles que desejarem ler o texto na íntegra.

E aqui, para conhecer quem é esse perspicaz editor.

Outubro 09, 2009

Simenon

Fui resgatado das brumas por um romance de Georges Simenon: Sangue na neve. A dura objetividade da narrativa – Simenon não admite volteios de espécie alguma – sequestrou-me ao mundo nevoso, quase espectral, em que a maldade surge sem qualquer objetivo claro. Graham Greene trata melhor do tema, em seu romance de estreia, O condenado, cujo fim, triste e impactante, concentra profunda reflexão não apenas sobre a relação entre Bem e Mal, mas principalmente sobre como o Mal pode nascer movido pela gratuidade insana. Mas Simenon, ainda que fique um pouquinho atrás, nos oferece seus parágrafos curtos, certeiros; Frank, o protagonista taciturno e infantil, para quem o mundo e as pessoas são personagens de um teatro de sombras; e trechos antológicos, como este, em que se revela o cinismo da caftina Lotte, mãe de Frank, que aluga meninas em seu apartamento, ao comentar sobre os fregueses:

[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.

– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.

É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.

– Como as filhas deles, entende?

O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.

É Lotte ainda que afirma:

– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!

Setembro 03, 2009

Estado sem limites (do jeito que a esquerda gosta)

Brilhante, para dizer o mínimo, o artigo de Demétrio Magnoli hoje no Estadão:

Nunca, desde o encerramento da ditadura militar, o Estado brasileiro violou tão profundamente a ordem democrática quanto na hora em que Mattoso selecionou, entre os milhões de correntistas da CEF, o nome de Francenildo, uma testemunha da CPI que investigava o poderoso ministro. No mesmo dia em que o presidente da CEF acessava o extrato "suspeito", mas não o transmitia ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), guardando-o para Palocci, Tião Viana prometia aos jornalistas "uma grande surpresa". O poder que faz isso não conhece limites. Seu horizonte utópico é o Estado policial: a administração pública convertida em aparelho de intimidação permanente dos cidadãos, por meio da invasão da privacidade e da chantagem pessoal.

[...]

Quando proferiram seus votos, os cinco juízes enxergaram um semelhante não em Francenildo, mas em Palocci. Eles votaram na sua casta, deixando as impressões digitais do persistente patrimonialismo brasileiro nos registros da Corte constitucional.


Maus tempos os nossos, caros leitores. Tempos perigosos para os cidadãos comuns.

Agosto 29, 2009

Abençoado canibalismo

Terminei de ler, há alguns dias, a biografia de Martin Heidegger escrita por Rüdiger Safranski: Heidegger – um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Apesar dos graves erros de revisão (em certos trechos, ficamos sem saber se o texto confuso se deve a falhas de tradução ou apenas à ausência de uma virgulação correta), trata-se de um magnífico trabalho que, infelizmente, não mereceu o carinho do editor brasileiro.

Safranski disseca a vida e a obra de Heidegger sem piedade, mas não comete o erro, muito comum nos dias atuais, de diminuir a obra do filósofo por causa de suas infames opções políticas, favoráveis ao nazismo, ou de algumas características pouco lisonjeiras da personalidade de Heidegger, como, por exemplo, seu comportamento durante a fase final da amizade com Husserl. Os limites da obra, quando apontados, surgem da própria obra, ainda que o julgamento final do biógrafo seja favorável: “Ele [Heidegger] não criou uma filosofia construtiva no sentido de uma visão de mundo ou uma doutrina moral. Não há ‘resultados’ do pensar heideggeriano, como há ‘resultados’ da filosofia de um Leibniz, Kant ou Schopenhauer. A paixão de Heidegger era indagar, não responder”.

Mas comento o trabalho de Rüdiger Safranski porque li hoje, no El País, o artigo de Carlos García Gual sobre Plutarco e suas Vidas paralelas, obra que, infelizmente, até hoje não teve uma tradução completa no Brasil, um dos inúmeros sintomas do nosso atraso cultural. É compreensível que as editoras se preocupem em publicar, por exemplo, as biografias de Roberto Carlos e Paulo Coelho. São figuras insignificantes, que estarão completamente esquecidas dentro de cem ou duzentos anos, mas cujas biografias, agora, podem representar altas tiragens e, claro, bons lucros – o que não recrimino, absolutamente. Incomoda-me, isso sim, não termos um Plutarco completo, bem traduzido e bem editado, semelhante ao que os espanhóis estão fazendo na Biblioteca Clássica Gredos, cuja seção grega é dirigida por García Gual, catedrático de filologia na Universidade Complutense de Madrid, dentre outros títulos. Principalmente porque, diferente dos exemplos acima, Plutarco continuará sendo referência dentro de cem, duzentos ou quinhentos anos. Aliás, outro indício de nossa grave enfermidade cultural – que parece se traduzir, inclusive, por um inexplicável desprezo em relação à Antiguidade Greco-Romana – é não termos nada do próprio Gual traduzido; seu Los orígenes de la novela, por exemplo, é leitura obrigatória a todos os que se interessem sobre a história do romance.

E já que estamos falando de biografias, aponto outra grave lacuna: A vida de Samuel Johnson, de James Boswell. Jamais traduzida entre nós, essa obra não apenas é o retrato magistral de uma das maiores inteligências que a humanidade já conheceu, como também fixou as bases modernas do gênero biográfico. Na Espanha, o livro já recebeu duas traduções. A última, excelente, foi publicada pela Acantilado, de Barcelona, em 2007. Boswell, amigo e discípulo de Johnson, seguiu exatamente o que seu mestre e biografado mandava: “olhar para o doméstico; exibir os detalhes mínimos de todos os dias, ali onde os homens brilham uns sobre os outros por sua prudência e virtude”.

Temos ótimas biografias, sem dúvida, trabalhos exemplares como o de Raimundo Magalhães Júnior sobre Machado de Assis, reeditado recentemente (sem esquecer o clássico de Jean-Michel Massa, dedicado à juventude de Machado, também reeditado); o Lima Barreto de Francisco de Assis Barbosa; e o trabalho de Sílvio Rabelo sobre Euclides da Cunha. Ou, um dos melhores lançamentos do ano passado: Anna: a Voz da Rússia - vida e obra de Anna Akhmátova, de Lauro Machado Coelho.

Mas esses poucos exemplos não devem nos satisfazer. Precisamos exercitar, sem peias, nosso “canibalismo” (Rudyard Kipling definia assim o gênero da biografia) – e necessitamos, sempre mais, de bons e incansáveis Judas (como Oscar Wilde chamava os biógrafos).

Agosto 27, 2009

“Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...”

Há um poema que, desde meus tempos de colégio, sempre releio. Lembro da tarde em que certa amiga o apresentou para mim, na cozinha ensolarada onde, com os livros abertos sobre a mesa, fazíamos um trabalho de literatura. Quando comecei a ler os versos – ah!, ainda posso reviver a mesma sensação... –, foi como se o mundo à minha volta subitamente parasse e eu, adentrando um salão desconhecido, amplo e majestoso, permanecesse extático, incapaz de qualquer movimento, possuído pela poesia. Foi, aliás, quando conheci Fernando Pessoa. O poema, “Hora Absurda”.

Gostaria de poder partilhar com vocês minhas ideias sobre esse poema, mas estou sem tempo, infelizmente. Contudo, deixo aqui o link para a breve mas lúcida análise que Pasquale Cipro Neto faz, na Folha de S. Paulo de hoje, dos quatro primeiros versos:

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...


E também reproduzo aqui duas das estrofes de que mais gosto:

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

Agosto 26, 2009

Enriquecer, mas sem perder o discurso jamais

Não está longe o ano de 1957, quando o montenegrino Milovan Djilas, férreo apoiador de Josip Broz Tito, lançou seu bombástico A Nova Classe – análise do sistema comunista, no qual denunciava o surgimento, no bloco dos países da Cortina de Ferro, de uma classe de privilegiados – os revolucionários que, ocupando altos cargos na burocracia, enriqueciam, corrompiam-se e se deleitavam nas benesses do Estado totalitário; sem, é claro, abdicar do discurso populista e demagógico, no qual os batidos chavões do igualitarismo seguiam intactos.

Djilas amargou processos, perda de cargos, expulsão do partido e prisões por conta da coragem, mas suas denúncias e análises, depois aprofundadas no livro Além da Nova Classe, de 1969, continuam atuais. Leiam, por exemplo, a reportagem da edição de hoje do El País: “La oligarquía orteguista”, que mostra como funcionários do governo da Nicarágua – no passado, guerrilheiros que fizeram parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e lutaram contra a ditadura somozista; agora, burocratas do governo Daniel Ortega – enriquecem à sombra do Estado, sem abandonar, contudo, o discurso a favor dos pobres e as críticas à classe alta. Enquanto simulam virtude e defendem a luta de classes, cuidam com extremo carinho da própria conta bancária.

A imprensa brasileira deveria fazer reportagens semelhantes sobre os próceres do esquerdismo nacional. Há quase oito anos no poder, muitos certamente agora já podem viver de maneira nababesca – mas preservando os velhos discursos, pois uma boa pitada de contradição (que eles preferem chamar de dialética) é inerente aos catecismos leninistas.